Língua de todos vs. norma(s) para todos

Um texto sobre como a Internet tem permitido abrir a todos o discurso sobre o funcionamento da língua em sociedade.

Ciberdúvidas da Língua Portuguesa — em linha, ao serviço de todos”, Revista Almadaforma, n.º 7, 2014, pp. 22-26

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O português em Angola e Moçambique

Depois da independência de Angola e Moçambique, há praticamente 40 anos, o português adquiriu rapidamente certos traços específicos nesses países.

A Gramática do Português que a Fundação Calouste Gulbenkian publicou em 2013 inclui um capítulo da autoria da Professora Perpétua Gonçalves, no qual se enumeram as características destas duas novas variedades linguísticas idem, pp. 157-177). De forma muito sumária, mencionemos aqui algumas (PA= português de Angola; PM=português de moçambique; os exemplos são pertencentes à fonte consultada, podendo ter sido adaptados):

1. Aspetos fónicos:

– padrão silábico constituído por consoante-vogal: querido, [ki’ɾidu] ou [ke’ɾidu];

– vogais átonas abertas ou semiabertas: bocado, [bo’kadu]; aluno, [a’lunu];

– influência de traços fónicos das línguas bantas: gado, [‘katu]; bolo [‘polu] (falantes de macua, Moçambique).

2. Aspetos lexicais

– empréstimos das línguas bantas (exemplos do PM): machamba, ‘terreno cultivado’; matope, ‘lama’, maçala, ‘fruto’; «nos dumba-nengue [=mercado informal]»; «cantar em coro com as timbila [=instrumento de percussão);

– palavras derivadas que não existem no português europeu: em PM, confusionar (=arranjar confusões), estilar (=exibir-se), emprestação (=empréstimo), ajudamento (=ajuda); em PA, churrascar (=fazer churrasco), bocar (=contar o que se ouviiu), cabelaria (=cabeleireiro);

3. Aspetos sintáticos

– supressão de preposições regidas por verbos: «entregou o emissário a carta» («ao emissário»); «ninguém protestou a iniciativa» («contra a iniciativa»);

– verbos intransitivos passam a transitivos: «ele evoluiu a sua aldeia» («fez evoluir»);

– possibilidade de fazer voz passiva com verbos intransitivos e transitivos indiretos: «ela nasceu um filho»; «o emissário foi entregue a carta»; «um filho pode ser nascido por ti»;

– supressão do pronome reflexo ou sua inserção com verbos que não o têm associado em PE: em PM, «ouvi um ruído e assustei»; «parecia troçar-se dele»;

– colocação dos pronomes átonos: em PM, «há pessoas que opõem-se à religião»; em PA, «te vi ontem no Roque», «ontem não viste-me»;

– expressões nominais sem artigo artigo: em PM, «faço bebida», «Malange tem diamante»; em PA, «a medida está a prejudicar atividade piscatória»;

– uso do pronome lhe: em PM, «levam a miúda para o quarto, vestem-lhe»; em PA, «a minha mãe diz que lhe vão buscar e lhe vão levar todos os dias»;

– simplificação da conjugação dos verbos: em PM, «como eu trabalha, não tem tempo», «ultimamente os casamentos não dura», «as condições não está nada bom», «meus neto são dezasseis neto»; em PA, «tu vai pagar tudo o que me fizeste», «a cerveja está caro», «eu trabalhava lá com os filipino»;

– alteração das formas de tratamento: em PM, «jovem universitário procure o teu lugar nas seis semanas de eleições», «se arrancas o salário você vai passar mal); em PA, «Consulte as listas. Angola conta contigo», «a tua vizinha diz que você saiu tarde».

Para mais pormenores sobre o português de Moçambique, consulte-se o blogue Moçambicanismos.

 

Uma voz com cem anos

As cordas da prisão/ lá de fora metem medo./ Que fará quem está cá dentro/ a cumprir o seu degredo.

As cordas da minha guitarra/ são de ouro acastanhadas/ São cabelos que eu roubei/ das tranças da minha amada.

Tal é a letra da canção/fado que um soldado português cantou há cerca de cem anos.

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=740609&tm=4&layout=122&visual=61

 

 

O 25 de Abril de 1974: uma revolução também linguística?

Qualquer mudança institucional como a Revolução Liberal de 1820, a implantação da República em 1910 ou a Revolução dos Cravos em 1974-1975 tem inevitavelmente consequências linguísticas.

No caso do 25 de Abril de 1974, também as áreas linguísticas geralmente mais expostas à mudança social registaram certas inovações, segundo Margarita Correia: «[…] é natural que o léxico e a pragmática da língua portuguesa tenham sido profundamente afectados pela Revolução de Abril. No que respeita à pragmática, isto é, ao uso da língua, a diluição das barreiras, tão rígidas outrora, entre os membros dos diferentes estratos sociais levou a mudanças significativas. Sem querer entrar em pormenores, porque o principal objectivo deste texto é falar do léxico, lembrem-se, no entanto, algumas mudanças que se verificaram nas formas de tratamento: maior emprego de tu e você, a passagem de expressões antes marcadas como pertencendo a registos muito descuidados do uso da língua (calão) para a linguagem familiar (chato e chatear, por exemplo), ou a utilização desenfreada de alguns bordões linguísticos (suponho que a todos chama a atenção, ao assistir a reportagens da época, a frequência com que o bordão pá! era usado naqueles dias pós-revolucionários).»

Sobre as alterações verificadas no plano lexical, vale a pena continuar a ler o artigo aqui.

Dialetos insulares (II): os Açores, em especial São Miguel e Terceira

Muitos continentais se enganam ao tomar a pronúncia da ilha de São Miguel como representativa de qualquer dialeto das ilhas açorianas. Sabemos que não é assim, porque cada ilha tem o seu falar, e dentro delas há também variação, de localidade para localidade. Aqui ficam dois apontamentos sobre os falares talvez mais conhecidos do arquipélago.

São Miguel

Terceira

 

Dialetos insulares (I): a Madeira

Na Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian (2013, pp. 105-115) considera-se que os dialetos insulares são claramente distinguíveis dos dialetos centro-meridionais do Continente. A perspetiva aí defendida é a de haver mais traços comuns entre os dialetos madeirenses e açorianos do que entre estes tomados globalmente e os falares do centro e do sul do território peninsular.

Comecemos pela Madeira, com um programa sobre a RTP Madeira, e apuremos o ouvido para “apanhar” os traços fonéticos que são típicos do falar local.

http://www.rtp.pt/play/p924/e89945/rtp-40anos-na-madeira

Há preconceito linguístico em Portugal?

O preconceito linguístico é um tema que tem encontrado bastante eco no Brasil, dada a consciência aguda neste país de haver um enorme fosso linguístico (e, afinal, cultural) entre brasileiros, o qual é mais social do que é regional. Um diagnóstico famoso desta situação é Preconceito Linguístico: o que é, como se faz, que o linguista brasileiro Marcos Bagno publicou em 1999. Neste livro, podem-se ler a seguintes afirmações, sem dúvida polémicas:

«O preconceito lingüístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa. […] A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a gramática normativa é a tentativa de descrever […] apenas uma parcela mais visível dele, a chamada norma culta. Essa descrição, é claro, tem seu valor e seus méritos, mas é parcial (no sentido literal e figurado do termo) e não pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto da língua — afinal, a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume total. Mas é essa aplicação autoritária, intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingüístico.» (Marcos Bagno, Preconceito Linguístico: o que é, como se faz, São Paulo: Edições Loyola, 1999)

Em Portugal, o problema parece não existir, pelo menos, na boa consciência de quem vive nos grandes centros urbanos, sobretudo na região de Lisboa. Mas não é isso que a investigação linguística recente revela:

«[E]mbora o português seja a língua materna da maioria da população portuguesa, apresenta muitas variantes, de acordo com a região onde se fala. As diferenças regionais, os dialetos são, não raras vezes, desprestigiados, ridicularizados e vítimas de muitos preconceitos, razão pela qual os falantes das variedades diferentes da norma, apresentam mais dificuldades na adaptação à escola, instituição onde são confrontadas com o português padrão.» (Anabela do Nascimento Fernandes, O Preconceito Cultural e Linguístico na Escola Portuguesa, Lisboa: Universidade Aberta, 2013, p. 28)

Será que a tão referida uniformidade linguística no território português não é, no fim de contas, mais que o resultado de uma atitude coletiva que rasura totalmente toda e qualquer veleidade de diferença? Será que, perante a diversidade de falares regionais, Portugal é assim tão diferente de outros Estados europeus que lidam, de modo repressivo, com situações linguísticas muitíssimo mais complexas?

Vejamos como, entre brasileiros, é proposta a discussão da ideia de preconceito linguística no contexto do mundo de língua portuguesa.

E porque não ouvir também o que Marcos Bagno tem para dizer – com impressionante segurança polémica e enorme radicalismo?

As aldeias em Lisboa

É possível fazer uma recolha de música tradicional portuguesa em Lisboa, não a circunscrevendo ao fado? Parece que sim.

E, quantos aos falares regionais? Alguma coisa fica do que aprendemos desde o berço, mesmo que mais tarde tenhamos tido de nos conformar ao padrão do meio para onde nos transferimos.

Este vídeo de A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria comprova-o pela voz de uma falante de Cabeceiras de Basto, há muitos anos em Lisboa. Não são só as cantigas de trabalho; são também o “i” entre os “aa” («linda-i-Ana»), e o “b” pelo “v”.

Falar em Lisboa

Lisboa, como capital e não só, exerceu sempre – para o bem e para o mal – uma enorme influência sobre todo o País, à semelhança de outras capitais no mundo. E  é provável que o seu maior contributo seja a do dialeto das classes cultas e dirigentes que aí se encontram, de tal maneira que, ao longo dos tempos, nesse meio social privilegiado mas permeável aos atavismos e inovações de outras variedades e de outras línguas, se criou o “português”, ou seja, um modelo de uso linguístico que os portugueses vêem como padrão e norma. É certo que não pode ser esquecida a participação de Coimbra na elaboração do “português correto”, até porque muitas vezes quem andava por Lisboa nos corredores do paço ou, mais tarde, dos ministérios, tinha estudado em Coimbra; contudo, hoje, apesar dos protestos, dir-se-ia que a chamada “lusa Atenas” já teve mais impacto: o “espâlho” da pronúncia alfacinha levou a melhor ao “espêlho” da urbe universitária.

Uma situação curiosa, que é própria do estatuto alcançado, é o facto de a “nacionalização” do falar de Lisboa, tornando-se exemplo por todos imitado no Estado português e difundido pela escola e pela comunicação social, levar a esquecer que também o “lisboeta” é historicamente um dialecto como os outros que se dispersam no Continente e nas Ilhas. E, no entanto, é esse falar de Lisboa, que não é bem o de todos os lisboetas, que se afirma como ponto de referência do espaço linguístico (e mítico) português.

É, por isso, interessante ver ou rever um filme de 1937, realizado por Leitão de Barros – Maria Papoila. A protagonista, que dá o nome ao filme, evidencia-se pelo dialeto (o s beirão, a confusão entre b e v,…), definidor da sua própria identidade e do seu baixíssimo estatuto social, assinalado logo no início do filme, aliás, em contraponto com a família abastada que, algures nas Beiras, se faz ouvir, de forma um tanto inverosímil para a época, sem o mínimo traço fonético local.