Lisboa, como capital e não só, exerceu sempre – para o bem e para o mal – uma enorme influência sobre todo o País, à semelhança de outras capitais no mundo. E  é provável que o seu maior contributo seja a do dialeto das classes cultas e dirigentes que aí se encontram, de tal maneira que, ao longo dos tempos, nesse meio social privilegiado mas permeável aos atavismos e inovações de outras variedades e de outras línguas, se criou o “português”, ou seja, um modelo de uso linguístico que os portugueses vêem como padrão e norma. É certo que não pode ser esquecida a participação de Coimbra na elaboração do “português correto”, até porque muitas vezes quem andava por Lisboa nos corredores do paço ou, mais tarde, dos ministérios, tinha estudado em Coimbra; contudo, hoje, apesar dos protestos, dir-se-ia que a chamada “lusa Atenas” já teve mais impacto: o “espâlho” da pronúncia alfacinha levou a melhor ao “espêlho” da urbe universitária.

Uma situação curiosa, que é própria do estatuto alcançado, é o facto de a “nacionalização” do falar de Lisboa, tornando-se exemplo por todos imitado no Estado português e difundido pela escola e pela comunicação social, levar a esquecer que também o “lisboeta” é historicamente um dialecto como os outros que se dispersam no Continente e nas Ilhas. E, no entanto, é esse falar de Lisboa, que não é bem o de todos os lisboetas, que se afirma como ponto de referência do espaço linguístico (e mítico) português.

É, por isso, interessante ver ou rever um filme de 1937, realizado por Leitão de Barros – Maria Papoila. A protagonista, que dá o nome ao filme, evidencia-se pelo dialeto (o s beirão, a confusão entre b e v,…), definidor da sua própria identidade e do seu baixíssimo estatuto social, assinalado logo no início do filme, aliás, em contraponto com a família abastada que, algures nas Beiras, se faz ouvir, de forma um tanto inverosímil para a época, sem o mínimo traço fonético local.

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