Os Galegos em Lisboa

Dos finais do século XVIII até aos primeiros decénios do século XX, os  Galegos são presença constante nos relatos das visitas de estrangeiros a Lisboa e na literatura portuguesa que descreveu a cidade. Que perceção se construiu em Portugal e, sobretudo, na sua capital da diferença linguística desses habitantes?

A resposta pode começar com uma breve sequência (10m30s – 12m57s) da comédia O Pai Tirano (1941), realizada por António Lopes Ribeiro (1908-1995). Nela se encontra um moço de recados galego que, com outras personagens de cunho popular, testemunha o devaneio amoroso de um Francisco sem “sex-appeal”. Nas duas intervenções da personagem, ouvem-se dois traços fonéticos que Lisboa e o sul do País atribuem ao Norte – o “tch” e o chamado “s” beirão. Contudo, um deles ocorre associado a uma palavra (paixão) cuja pronúncia (“paitchão”) parece dever-se apenas às necessidades de composição de um estereótipo, não tendo que ver com a fonética do vocábulo correspondente em galego (paixón ou o castelhanismo pasión).

Falares de Trás-os-Montes

Os falares transmontanos fazem parte dos chamados dialetos setentrionais portugueses, que têm os seguintes traços fundamentais (Gramática do Português, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, pp. 90-97):

a) a troca do v pelo b: vento (“bento”), fava (“fava”);

b) o impropriamente chamado “falar axim”, também conhecido por “pronúncia assobiada” do s e do z em muitas palavras: passa, casa;

c) a conservação do som “tch”: chave (“tchave”), cacho (“catcho”);

d) a conservação do ditongo ou, muitas vezes pronunciado como “âu”: ouro (“âuro”), pouco (“pâuco”);

Em relação ao s e ao z, deve assinalar-se que, geralmente, os falares transmontanos conservam uma característica sonora muito antiga, que a ortografia ainda hoje recorda, mas que desapareceu na maneira de falar das zonas mais a sul e do litoral: o ç de maça não soa como o ss de massa, nem o s de coser tem o mesmo som que o z de cozer.

Oiçamos duas pessoas de gerações diferentes, a propósito de especialidades da cozinha tradicional transmontana.

Falares do Alentejo

Integram-se os falares do Alentejo nos dialectos centro-meridionais, conforme a  classificação de Lindley Cintra. São bem conhecidas as características gerais fonéticas, morfológicas e sintáticas destes falares  (cf. Manuela Florêncio 2001. Dialecto Alentejano – Contributos para o seu Estudo, Lisboa: Edições Colibri, pp. 82/83):

– a monotongação do ditongo “ei” (passa a “e”, geralmente fechado): leite > “lête”;

– ditongos eu, au e ão passam respetivamente a “ê”, “à” e “ã” se as palavras em que ocorrem forem seguidas de outras: «o meu pai» > «o “mê” pai»;«mau homem» > «”má” homem»; «tão lindo» > «”tã” lindo», «não sei quais são»  > «”nã sê” quais “sã”» (até mesmo no interior de palavra: aumento > “àmento”, autoridade > “àturidade”, flauta > “flata”;

– o –em final pode não ser pronunciado como ditongo: bem ~ “bẽ”; tens  ~ “tẽs”;

– conservação de “ê” em –elho/a, –enho/a e ejo/a: ovelha – “ôvêlha”; tenho – “tênho”; seja – “sêja”;

– nasalação das vogais antes de m, n ou nh seguidos de vogal: cama > “cãma”; pano > “pãno”; sonho > “sõnho”;

– o –e final passa a –i, e –r, –l e ê são também seguidos da referida vogal: hoje > “hoji”; fonte > “fonti”; eles > “elis”; sal > “sali”; comprar > “comprari”; José > “Joséi”;

– termina em -i a 1.ª pessoa do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1.ª conjugação (cantAR): cantei > “canti”, abalei > “abali”, trabalhei > “trabalhi”;

– terminam em –om as 3.as pessoas do plural do pretérito perfeito do indicativo de todas as conjugações, do presente do indicativo da 1.ª conjugação e do pretérito imperfeito da 2.ª e 3.ª conjugações (corrER, partIR): chegaram > “chegárom”, fizeram > “fizérom”; compram > “cómprom”; bebiam > “bubíom”;

– utilização do gerúndio flexionado: «em tu me “chamandos”, vou lá»;

– utilização das construções «à de» e «a de»: «à da Fernanda» (= «na/em casa da Fernanda»); «a do Corvo» (= «o monte do Corvo»).

– emprego de nunca em lugar de não: «eu “nunca” fui lá ontem».

Não se pense, porém, que estas características aparecem sistematicamente em todos os falares alentejanos – nada disso! O Alentejo é enorme, e a verdade é que os estudos de dialectologia registam muitos mais traços do que os aqui referidos, isolados ou agrupados em diferentes sub-regiões. Além disso, a pressão do português-padrão, exercida pela escolarização e pelo acesso aos media, tem levado ao desaparecimento de muitas formas de falar.

Seja como for, escutemos o que alguns alentejanos da zona de Elvas têm a  dizer sobre um aspecto cultural que define bem a identidade alentejana – o uso de alcunhas ou anexins.

Dos livros aos leitores

O 2.º Encontro do Plano Nacional de Leitura promovido pelo Centro Novas Oportunidades de Cacilhas foi uma boa oportunidade para refletir um pouco sobre a leitura e a escrita na formação de adultos. Além das participações de vários adultos, que na sua maioria leram textos da sua autoria, foram feitas apresentações sobre os hábitos de leitura dos adultos do CNO de Cacilhas.

Intervim num dos painéis com uma brevíssima pesquisa sobre a importância dada à leitura nas autobiografias de 38 adultos, que acompanhei como formador entre setembro de 2011 e junho de 2012 (ver apresentação aqui). Esse pequeno estudo permitiu-me extrair algumas conclusões interessantes, ainda que muitíssimo provisórias:

–  a leitura é uma atividade com mais importância entre a população feminina do que entre a masculina;

– a população mais velha (maior de 35 anos) lê mais do que a população jovem.

Que os homens leiam pouco não se afigura surpreendente, porque há estereótipos culturais que podem afastá-los do campos privilegiado da leitura mais extensa, ou seja, a ficção. E que os mais jovens também confessem serem pouco dados aos livros também não é novidade, se nos lembrarmos que muitos textos exigem um grau de maturidade que, afinal, talvez não seja assim tão frequente antes dos 30 anos. Fico à espera de nova ocasião para aprofundar um pouco mais este tema.

Palavras e línguas, leva-as o tempo

Imagem do Apocalipse de Lorvão (séc. XII)

A leitura de textos do Renascimento português ou dos tempos do galego-português trovadoresco revela-nos contrastes importantes com o idioma moderno: no uso das palavras, na estrutura das mesmas e nas construções frásicas, ou seja, no léxico, na morfologia e na sintaxe da língua – para não mencionar a pronunciação, ou melhor, a fonologia e a fonética. Vemos que, por um lado, vocábulos como asinha (‘depressa’) ou samicas (‘talvez’), que estão documentadas em Gil Vicente, são hoje formas completamente mortas no idioma; por outro, textos do século XIII mostram que a terminação –ão, tão característica da nossa língua a partir do século XV, era menos frequente do que hoje: can (cão), geeraçon (geração).

Tais palavras e estruturas desapareceram à medida que surgiam outras formas que supriam as necessidades expressivas e comunicativas dos falantes. Perante este processo, podemos reagir com a nostalgia decorrente de qualquer perda, mas depressa se impõe à nossa consciência a indesmentível vitalidade da língua portuguesa no presente, como comprova o elevado número de falantes que a coloca entre as dez mais faladas do mundo e o estatuto oficial de que usufrui em Angola, no Brasil, em Cabo Verde, em Moçambique, em Portugal e em São Tomé e Príncipe, países onde é usada extensivamente em diferentes atividades e em especial na comunicação social.

E que acontece às línguas circunscritas a pequenas comunidades, sem dinâmica nem projeção fora delas? O mais provável é dentro de alguns anos a maioria desaparecer, à medida que os seus escassos falantes vão morrendo, o que leva a Unesco a afirmar que mais de 6000 estão ameaçadas de extinção (em inglês, fala-se em “endangered languages”). Espera-se, pois, que muitas das línguas assim classificadas desapareçam pressionadas por de outras de maior dimensão, como o inglês, o espanhol ou o português.  Sem discutir os benefícios e as desvantagens da uniformização linguística, é, no entanto, irónico constatar que o mundo globalizado parece subtrair a Humanidade à diversidade linguística que no mito de Babel era encarada como castigo.

Sem negar a importância da compreensão entre indivíduos e a possibilidade do ato de traduzir, reconheça-se, não obstante, que cada língua configura um modo peculiar de perspetivar o mundo, suscetível de revelar as virtualidades do pensamento humano na vida em sociedade. Impõe-se, portanto, a tarefa de registar o mais depressa possível essas línguas ameaçadas. É o que pretende fazer a equipa que desenvolve o projeto Enduring Voices, no âmbito do qual produziu vários Talking Dictionaries (“dicionários falantes”), que dão acesso a palavras de línguas tão díspares como o tuva (Sibéria, Rússia), o Siletz Dee-Ni (Oregon, EUA) ou o Matukar Panau (Papua-Nova Guiné). No vídeo que se segue (em inglês),  o coordenador do projeto, K. David Harrison (Swarthmore College, Pensilvânia, EUA) apresenta este projeto e conta a história curiosa de como os falantes de uma pequena comunidade da Papua-Nova Guiné, vivendo sem eletricidade, decidiram pedir ajuda para disponibilizar na Internet um registo da língua que falam.

Discutindo a língua dos “media”

O português que hoje se fala e escreve em Portugal (e no Brasil, em Angola e outros países) é largamente modelado pelo impacto dos meios de comunicação social, levando o filólogo e linguista Ivo Castro a afirmar o seguinte:

“Podiam os gramáticos do séc. XVI dizer-nos que a norma emanava da Corte e os do XIX que ela emanava de Coimbra, porque tinha a Universidade, mas hoje teriam de reconhecer que a norma portuguesa dotada de maior vitalidade e capacidade de fazer adeptos é a que transmitem os jornais, a rádio e a televisão.”(Ivo Castro 2003. “O linguista e a fixação da norma“, Actas do XVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística (Porto, 2002), Lisboa, APL, p. 12)

Foi a propósito desta realidade que no passado dia 14 de maio, na Escola Secundária de Cacilhas-Tejo, falou o jornalista José Mário Costa, responsável pelo “site” Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, assim preenchendo a 6.ª edição de O Prazer de Ler+, uma iniciativa do Centro Novas Oportunidades (CNO) de Cacilhas, integrada no âmbito do Plano Nacional de Leitura. Tratou-se de um evento que contou também com o apoio da BECRE da referida escola e da Associação de Professores do Concelho de Almada(APCAlmada)/ Universidade Sénior de Almada (USALMA) e se destinou a um público constituído por alunos e formandos de cursos de educação de adultos (RVCC, EFA e membros da Usalma). No final da sessão, José Mário Costa respondeu a algumas questões que inevitavelmente recaíram sobre o tema da atualidade linguística: a aplicação do novo Acordo Ortográfico.

Ler também notícia no “site” Universo de Literacias do CNO de Cacilhas: José Mário Costa – O Prazer de Ler+.